Empresário da construção civil, do varejo, de serviços, da hotelaria e do setor de energia, Ennius Muniz chegou a Brasília
aos 13 anos, vindo de Belo Horizonte, em março de 1961, e acompanhou de perto a consolidação da nova capital. Formado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de Brasília, ingressou no empreendedorismo ao fundar a Conbral, empresa que deu origem a um grupo com dez negócios e mais de mil empregados e colaboradores.
Ao longo da trajetória, também se destacou na representação do setor produtivo, presidindo a CDL-DF e atuando em entidades como Sindivarejista-DF,Sinduscon-DF e Ademi-DF. Atualmente, é diretor da Fecomércio-DF e conselheiro do Senac-DF, instituição que deu seu nome a uma unidade no Setor Comercial Sul.
Defensor do planejamento sucessório e da continuidade das empresas familiares, Ennius prepara filhos e netos para assumir os negócios. “Quando a su cessão não é organizada, ela acontece de qualquer forma, muitas vezes de maneira traumática. Planejá-la é uma responsabilidade com a família, com os colaboradores e a sociedade”, afirma.

1 – O senhor chegou a Brasília ainda adolescente. Como sua formação e as experiências profissionais daquele período o levaram ao empreendedorismo?
Meu pai era um juscelinista convicto e acreditava muito no projeto da nova capital. Estudei sempre em escolas
públicas, inclusive na Universidade de Brasília, onde me formei. Inicialmente, pensava em cursar Engenharia Mecânica. Sempre gostei de motores e automobilismo, cheguei a ser campeão brasiliense de kart em duas categorias e terceiro colocado no
campeonato brasileiro, mas encarei isso como lazer, não como profissão. Naquela época, para me formar en genheiro mecânico e praticar a profissão, provavelmente teria de deixar Brasília, e acabei desistindo da ideia. Percebi, enquanto trabalhava em banco, que as melhores contas da agência eram de empresas da construção civil. Queria melhorar de vida e enxeguei naquele setor uma oportunidade. Tentei primeiro Engenharia Civil, mas não fui aprovado. Passei em Arquitetura e Urbanismo na UnB e, seis meses depois, consegui também a aprovação em Engenharia.
Como possuía dois empregos, seria muito difícil conciliar a rotina com o curso de Engenharia Civil. Permaneci na Arquitetura, que
também me habilitava a atuar como responsável técnico e empresário da construção civil. Mais tarde, fui convidado por quatro parceiros para fundar a Conbral. Entrei com uma participação pequena, mas, ao longo do caminho, percebi que o negócio não havia sido estruturado da melhor maneira. Como já era sócio e não tinha condições de simplesmente sair, comprei as participações dos demais e passei a conduzir a empresa sozinho. Posteriormente, fui incorporando meus filhos e meu irmão à sociedade.
2 – Atualmente, o senhor e seussócios possuem onze empresas em diferentes segmentos, todas com sede no mesmo local. Porque o senhor decidiu diversificar os negócios?
A diversificação surgiu de uma necessidade. Em muitos países, as empresas buscam a especialização, aprofundando-se naquilo que fazem melhor para ganhar eficiência e vantagem competitiva. No Brasil, entretanto, a instabilidade econômica, asmudanças tributárias e as intervenções frequentes sobre determinados setores acabam levando muitos empresários a diversificarem para reduzir riscos. Aprendi isso depois de uma crise muito grave, no fim da década de 1980, advinda dos efeitos internacionais da crise do petróleo. O Brasil foi fortemente atingido, e a construção civil sofreu muito. Naquele momento, eu estava excessivamente concentrado no setor. Além da construtora, produzia blocos de concreto, tanques, pias, caixas de gordura, fossas e lajes pré-moldadas. Quando a construção entrou em crise, todas essas atividades foram afetadas ao mesmo tempo.
Depois de superar aquele período, compreendi que precisava distribuir melhor os riscos. E, então, começamos a atuar também em outros segmentos, como varejo, hotelaria e energia limpa. Hoje além da Conbral,temos as empresas Lord, Lady Perfumaria, Saan Park, Life Gama, Shopping Sul, Locatec, TaguaVille, UFV’s,MicBox e a W502.
3 – Como está estruturado atualmente o grupo empresarial e qual é a dimensão das suas operações?
As empresas reúnem pouco mais de mil empregados e colaboradores. É um número que procuro manter. Houve uma época em que a Conbral,sozinha, chegou a ter aproximadamente 1,5 mil colaboradores. Hoje, a construtora possui cerca de 600 profissionais e está mais enxuta, porque optei por reduzir sua participação relativa no conjunto dos negócios. Também temos as perfumarias Lorde Lady, com aproximadamente 400 trabalhadores. Adquirimos a marca Lady e desenvolvemos um modelo baseado tanto em lojas próprias quanto em franquias. No varejo, escala e volume de compras são fundamentais. A rede permite negociar em melhores condições e transferir essa vantagem aos clientes e franqueados. A franquia também possibilita uma expansão mais organizada, cada unidade tem um empreendedor diretamente responsável pelo negócio, mas conta com o conhecimento, a experiência e os processos desenvolvidos pelo grupo.

Para quem deseja começar uma atividade empresarial, esse modelo pode reduzir riscos e facilitar o acesso a uma estrutura já testada. Na hotelaria, fizemos uma mudança de estratégia. O prédio onde funciona atualmente a sede do grupo já operou como hotel convencional. Em razão dos custos operacionais e tributários,deixamos esse modelo e passamos a trabalhar com hospedagens de longa permanência, acima de 30 dias. É uma operação mais compatível com o porte e a estrutura que temos.
4 – A empresa familiar foi uma escolha desde o início? Como o senhor vem preparando seus filhose netos para a sucessão?
Construir uma empresa familiar foi uma opção de vida. Eu queria que a empresa também representasse uma oportunidade profissional para a família. Ao longo dos anos, trabalharam conosco meus pais, meus irmãos, sogros, cunhados,
filhos e, agora, netos.
Sempre procurei transmitir uma orientação muito clara: cada pessoa deve ter uma profissão. O diploma não deve existir apenas para ocupar um cargo na empresa. A formação precisa permitir que o familiar tenha competência para trabalhar aqui, mas também autonomia para seguir outro caminho. Meus dois filhos mais velhos trabalham comigo há cerca de 30 anos. Minha filha é administradora de empresas e possui pós-graduação em Marketing. Meu filho é engenheiro civil e tem três MBA no setor. Meu irmão, também engenheiro civil, tornou-se diretor técnico.
À medida que assumiram responsabilidades e contribuíram para o crescimento das empresas, receberam participação societária.
Recusei propostas de associação com grandes empresas porque sabia que seria difícil conciliar, no futuro, os interesses de um parceiro externo com uma estrutura familiar formada por vários sucessores. A empresa sempre foi também uma forma de convivência e construção conjunta. A sucessão, porém, não pode depender apenas da boa relação entre os familiares. Estamos elaborando um estatuto da família, que definirá princípios e condições para preservar a saúde e a continuidade dos negócios.
Tratar juridicamente da sucessão nos obriga a refletir sobre a própria finitude,o que não é confortável. Quando comecei a discutir o assunto com advogados,senti esse impacto. Depois compreendi que essa era mais uma responsabilidade que eu precisava assumir. Quando a sucessão não é organizada, ela acontece de qualquer forma, muitas vezes de maneira traumática. Planejá-la é importante para a família, para os sócios, para a sociedade e, sobretudo, para os colaboradores que dependem da continuidade
das empresas. Inclusive, hoje temos aténetos de funcionários que já se aposentaram e hoje trabalham conosco.
5 – Ao longo da sua trajetória, o senhor ocupou diferentes funções em entidades representativas. O que o motivou a participar da defesa do setor produtivo?
A representação setorial é importante em qualquer lugar do mundo, mas talvez seja ainda mais necessária no Brasil, em razão da maneira como as decisões políticas, econômicas e tributárias afetam o setor produtivo. O empresário não pode olhar apenas para dentro da própria empresa. É necessário participar das discussões coletivas, apresentar as demandas do segmento e ajudar a construir condições adequadas para que as atividades econômicas se desenvolvam.
Fui presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas do Distrito Federal, de diversas associações de shopping centers. Também participei ativamente do Sindivarejista-DF, do Sinduscon-DF, da Ademi-DF e de outras organizações ligadas aos setores nos quaisatuamos. Atualmente, sou conselheiro nato da CDL-DF, do Iate Clube, além de conselheiro do Senac-DF, da Faculdade de Inovação e Tecnologia do Senac-DF, diretor da Fecomércio-DF e do Sindivarejista-DF.
Tenho muito orgulho de acompanhar a evolução do Sistema Comércio. Em determinado momento,cheguei a pensar que não veria as entidades prestando tantos serviços diretamente aos empresários, aos trabalhadores e à população. Hoje, a CNC, a Fecomércio-DF, o Sesc-DF, o Senac-DF e o Instituto Fecomércio-DF desenvolvem um trabalho de grande alcance. Inclusive, quero aproveitar o espaço para fazer uma elogiosa reverência ao presidente da CNC, José Roberto Tadros, pelo que tem feito pelo Brasil, assim como ao presidente do Sistema Fecomércio, José Aparecido Freire, e seus diretores regionais, Valcides de Araújo, Vítor Corrêa e Regina Malheiros, além do diretor da Faculdade Senac-DF, o professo Luis Afonso Bermudez, pelos incríveis resultados alcançados no Distrito Federal.
6 – Como o senhor recebeu uma homenagem do Senac-DF e teve seu nome dado à unidade do Setor Comercial Sul. Como foi viver esse momento?
Foi a homenagem mais relevante que recebi em toda a minha vida. Tive o privilégio de ser reconhecido em diferentes ocasiões, mas dar meu nome a uma unidade do Senac-DF possui um significado especial por que reúne as dimensões profissional, institucional e familiar da minha trajetória. Meu avô também deu nome a uma escola em Coromandel, Minas Gerais, cidade da qual foi prefeito. Aquela homenagem era motivo de grande orgulho para nossa família e deixou em mim, como neto, uma
marca muito forte.
Quando o Senac-DF prestou essa homenagem, minha mãe estava perto de completar 102 anos. Para ela,significou um reconhecimento à vida construída em Brasília, onde criou os filhos e viu a família participar do desenvolvimento da cidade e de suas instituições. Pouco tempo depois, ela faleceu. Por isso, a cerimônia se tornou um dos momentos mais emocionantes
da nossa história familiar. Foi como o último ato de uma longa trajetória, antes de as cortinas se fecharem. O reconhecimento não pertence apenas a mim. Ele alcança meu irmão, meus filhos, meus netos e todos os familiares que participaram das empresas e das entidades representativas do comércio.
Quero deixar registrada minha gratidão eterna ao presidente Aparecido, ao diretor Vítor Corrêa e ao egrégio Conselho do Senac-DF.

7 – O senhor participou, ainda na universidade, de um dos primeiros estudos sobre a implantação do metrô e hoje investe na revi talização da W3. Como avalia as transformações urbanas de Brasília?
Meu trabalho final no curso de Arquitetura e Urbanismo da UnB, apresentado em 1972, foi desenvolvido com outros dois colegas e tratava do transporte de massa no Distrito Federal. Estudamos os deslocamentos da população e concluímos que o metrô seria a solução mais adequada para Brasília.
A proposta causou grande polêmica. Foi publicada nos jornais, apresentada na Associação Comercial e discutida com autoridades. Oscar Niemeyer e Lucio Costa manifestaram discordância. Também nos reunimos com o então governador Elmo Serejo. Ele falou
sobre a criação da Estrutural como solução viária, e eu argumentei que seria paliativa. Defendíamos que Brasília,como outras grandes cidades, precisaria de um sistema metroviário.
A implantação do metrô começou mais de duas décadas depois. Hoje, ainda precisa ser ampliado para atender melhor a trabalhadores, comércio, turismo e população das diferentes regiões administrativas. O trajeto já implantado e o previsto são exatamente o que propusemos na época. Também acredito na revitalização da W3 e do Setor Comercial Sul. Brasília é
uma cidade muito jovem para ter áreas centrais degradadas ou esvaziadas. A setorização excessiva mostrou limitações. Quando determinadas atividades deixaram o Setor Comercial Sul, muitos serviços relacionados também saíram, reduzindo a circulação de pessoas. Depois das 18h, a região ficava praticamente deserta, favorecendo ocupações inadequadas e aumentando a sensação de abandono.
Essas áreas passaram por um processo de revitalização e retrofit, incorporando várias novas atividades. Esse é o conceito de uma cidade mais inteligente, na qual as pessoas conseguem realizar atividades cotidianas perto de onde vivem, sem depender permanentemente do automóvel. Falta aprovar o uso residencial do Setor Comercial Sul. Isso não afeta o tombamento, apenas
revitaliza o setor. Estamos investindo no retrofit de um imóvel na W3, transformando unidades comerciais em residenciais. Entendemos que houve uma mudança na forma de ocupar e utilizar esses espaços.
Quando um empresário volta a investir,ajuda a estimular outros projetos e a recuperar a vitalidade econômica e urbana da região. Precisamos acreditarnos movimentos que nascem da sociedade e contribuam concretamente para que Brasília se adapte às novas
exigências.

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